sexta-feira, dezembro 24, 2010

tudo bate o pé

Toma. Oh, obrigado. Gostas? Sim. É para ti. Eu sei. Estou a dar-te uma coisa. Já vi. O que é que se diz? Obrigado, já disse. Repete. Obrigado. Isso. Gosto muito. Ainda bem. Há mais? Para o ano. Dá-me um beijo. Para o ano.


Ande o frio por onde andar - B.V.

quinta-feira, dezembro 16, 2010

o que a gente quer

A: Já tomaste banho?
B: Já tomei banho. Podes sair.
A: Mas não quero. Estava a gostar.
B: Se já não estás, podes sair, já disse.
A: Não estou a gostar da conversa, é só isso.
B: Então sai. Já tomei banho.
A: Não queres dar uma? Dar outra, quero dizer?
B: Não dava tempo. Estou farta de foder.
A: Eu estou farto de conversar.
B: Eu estou farta de ter que me lavar.
A: Depois?
B: Sim. Farta.
A: Eu estou farto de ti. Sabes isso? Estou farto de ti.
B: Pois. Já tomei banho. Podes sair.
A: Queres que te compre cigarros?
B: Sim.
A: Vou sair. Veste-te.

o próprio

Quando Jonas saiu da máquina, estava ressuscitado. Ouviu-se um ruído, um chiar muito forte, que a fez sair da sala, à mulher dele, desse Jonas que era outra vez vivo e novo e bem-parecido. Quando Jonas saiu da sala da máquina, a mulher não estava lá fora, o homem perdeu o significado da outra vida e começou a chorar.
A mulher não gostava do chiar da máquina, mesmo este chiar que lhe tinha trazido um homem, um marido, o mesmo de sempre, o que a enviuvara. A mulher mastigou o ódio: nem o engoliu nem o cuspiu, mas fez com ele uma papa, má de se mascar. A mulher de Jonas odiava-o por ele se ter matado; matara-se por medo dela, que tinha descoberto o seu envolvimento com a enfermeira Nanci e o queria matar. Jonas matara-se para que a víbora não o matasse. E a mulher devolveu-o, carregando no botão azul, para que o pudesse matar.
A mulher já matara Nanci e lamentou-se a um espelho para mãos pequenas o quão cara tinha sido a máquina; esperou pelo Jonas aqui ao pé do carro. Guardou o espelho. Quando a curiosidade trouxe Jonas cá fora, ela já tinha a arma na mão.
Antes de o matar, perguntou-lhe :
Sabes o meu nome já reparaste que não tenho nome já viste que quando as pessoas as pessoas precisarem de me conhecer a cara de a marcar de nunca a esquecer não vão ter nome para lhe dar já imaginaste e se fosse contigo ias gostar não ias mato-te aqui mato-te agora estás morto.
Jonas murmurou qualquer coisa mas não se percebeu. Às tantas a respiração parou.

sábado, novembro 06, 2010

cruzar referências

O homem olhou para baixo e procurou o seu pé. Estava assente sobre o chão, estava calçado e estava tenso por sentir o peso do olhar do homem de que era pertença inata; o outro pé também estava bem.
O problema estava em cada uma das mãos, que naquele homem havia duas. As mãos puxavam o homem até coisas que ele não queria alcançar. O homem começou por tentar controlar as mãos, autónomas e indelicadas, mas depois deixou que elas o guiassem. E as mãos levaram-no às cervejas, e a atirá-las para dentro da banheira, ao traseiro de uma senhora, puxando dele como duma gaveta - e o homem desistiu das coisas que não controlava, desistiu das mãos e procurou a cama, deitando-se nela e amaldiçoando aquelas mãos, quando tudo o que ele queria era pegar num cigarro com uma mão, a direita, e com a esquerda agarrar num livro pela lombada, que ele abrisse e que lesse. Mas deitou-se na cama, e esperou que o sono viesse enquanto as mãos o importunavam com danças sem sentido e intenções que o homem desconhecia. No limbo entre o absurdo e o sono, as mãos desceram-lhe pelo tronco, até às virilhas e começaram uma massagem obscena e assim se veio o homem, pelas mãos de outrem. Porque as mãos livres, cheias de carisma, eram as mãos de outro homem, que, de pau feito, se contentava com um livro de receitas na mão esquerda e se engasgava com o cigarro que acendera e segurava com a direita - tinha havido uma troca.
Sujo, num gesto de repugnância, cortou as mãos com os dentes, e assim se esgotou a confusão deste homem.

Raul

sábado, outubro 30, 2010

sms

Quer exprimir-se de
uma forma clara e explícita,
O deus lhe concedeu a
dádiva do canto inspirado.
Incompetente de
merda,
É preciso criar
novas formas!
Questão fez de
me lembrar.


Pardon my enthusiasm.

terça-feira, outubro 26, 2010

filmagem das curvas dos corpos

Sentam-se.

ROSA: Dá-me.
PEDRO: O quê?

ROSA: Estás a ouvir? Dá-me.
PEDRO: De uma vez por todas?
ROSA: Sim. E para sempre.
PEDRO: O que tu quiseres.
ROSA: Tu não sabes o que eu quero.
PEDRO: Sei. Dou-te?

ROSA: Toma tu também.
PEDRO: Não quero.
ROSA: Anda lá.
PEDRO: Onde?
ROSA: O quê?
PEDRO: Comigo não.

Matam-se.

segunda-feira, outubro 25, 2010

tomé em tempos de crise (2)

O druida era homem para morar longe dali, longe de si, longe da sua própria morte, que ia a caminho, é ela que vem sempre ter connosco, não é por ser o Tomé, neste caso, que vai a caminho, sendo, mesmo não querendo, mesmo que seja pouco o que lhe pagam, a morte do druida.
Estava a dez metros de distância do druida. Ele estava de costas, onde é que já se viu, de costas para a própria morte, que falta de respeito para com o travão de todos os males, o atenuador de todas as dores, o silenciador de todos os bicos, mesmo a tempo, majestade, não me vires as costas, scar, quem diz scar, diz druida, não estamos nós na selva, nem isto é animação, é sim relato do que faz tomé em tempos de crise, não me vires as costas druida.
Os dez metros fazem-se mal, apesar de serem só dez e de os passos de Tomé serem largos, pois Tomé não quer ser visto, e o lento que se obriga a ser, para que os passos não o denunciem, faz-lhe doer as pernas e os miolos. De tão devagar que ele andava, tinha o druida tido tempo para mais uma poção, é pena druida ser só nome e não habilitação profissional. Tomé chega ali, dez metros a contar do sítio em que estava que eram dez metros do sítio onde estava até às costas do druida, o sítio em si não interessa, está prestes a acontecer um crime, silêncio, dez metros que demoram uma hora e metade de outra a serem percorridos, Tomé é uma lesma.
O druida virou-se e não teve tempo de o lamentar, porque o lugar do cérebro habilitado à lamentação foi furado em tiro primeiro e certeiro do revólver de Tomé, Tomé não só é lesma como assassino.
Recuperou o andar normal, atravessou estradas e avenidas com a pistola na mão, do cano da arma escorrendo o suor da manápula assassina, e teria chegado ao careca, ou ao outro, ou às silhuetas atrás, recortadas sob a ombreira da porta para lá das escadas, se a morte que personificava não se tivesse virado contra ele, Tomé, de mão suada, arma deslizando pela mão, cano disparando sem querer, pé atingido sem doer, um carro engoma Tomé como um ferro engoma uma camisa branca, e Tomé não chega a sentir o pé desfeito, já que se desfaz Tomé inteiro por peso e poder da máquina.

domingo, outubro 24, 2010

tomé em tempos de crise (1)

Foi no quarto lance de escadas que Tomé deu o primeiro suspiro de cansaço. No último degrau, bem soube, pôde descansar as calosidades em erupção e sentir o vento de raspão nos pêlos ralos do pescoço. À sua volta, tudo era cinzento, como uma multidão desinteressante. Há mesmo uma multidão desinteressante que surge, encabeçada pela figura de um careca, recortado sob a ombreira duma porta agora nítida, que lhe diz
olá
venha cá
ao que veio
diga lá
ao que respondeu Tomé, com o discurso prudente, ligeiramente ensaiado, não era hábito seu fazer parte destes ajuntamentos, mas esse seu emergente desejo permitia às palavras sair, e elas saíram tipo
fui enviado
sou eu
escolheram-me
não quero
fui obrigado
o que é que tenho que fazer?
Aí o careca recuou e perdeu-se na multidão que estava atrás dos seus ombros. Outro avançou, este com cabelo e barba, tudo a que tem direito, inclusive um olho negro, este levara porrada, se levara também dera, se dera podia dar-lhe porrada a ele também, Tomé, coitado, que medo que ele tem. Diz-lhe o cabeludo que
é assim
é um gajo
para morrer
para matares
é o druida
conheces
vês como conheces
Tomé afastou-se, em arrecuas semelhantes às do careca, mas acenou como quem aquiesce, como quem diz que sim mesmo que queira dizer que não, como quem não é assassino mas decide brincar aos assassinos por uns trocos, porque não há, porque é assim, porque Deus não existe, então o Inferno também não.

segunda-feira, outubro 18, 2010

texto inútil de palavra esforçada que é o que é

Vale mais a ponta de um ponteiro que a longa cadência dos anos. O momento de ouro, que depende da cadeira, de mim ou de ti, do cigarro, do tique que se desvenda, do som da gota que cai em jeito de tortura ou da música, o momento de ouro é cada um deles. É de se agarrar. À senhora da paragem, vestida em seu pijama branco de insanidade, falta o registo das horas, dos fragmentos, do que respira cá fora, sentada comigo à espera do eléctrico que só passa para mim, que eu apanho, que para ela não, não há eléctrico. Talvez esteja a aproveitar, assim, sentada e alisando com as mãos o pijama branco, mas não, fala, cospe a lenga lenga baloiçante, e não a vejo respirar. Quando o som se corta, a boca mexe. Está assustada.
Vá, tento pôr-me na posição que defendo, mais difícil é o fazer do que o dizer, o dizer é fácil, é corriqueiro, o dizer é um cagalhão escorrido - só não o é realmente porque o cagalhão espreita do cu e o dizer da boca. Vá, tento pôr-me na posição que defendo. Mas não estou a babar cada palavra que digito, nem a sentir a pulsação de cada vírgula. Escrevo sem prazer, como se precisasse, como se faltasse. Mas era melhor que não. Melhor que isto era a mão, o chá e o papel.
Leio-me e, porque sim, ponho aqui este ponto.


Assinado por Mim, mais um bocadinho.

domingo, setembro 26, 2010

transfiguração OU proteja o seu planeta

Era uma vez um homem chamado Adão e uma costela chamada Eva, que um dia trincaram uma
(...)
Depois de o mundo estar de pantanas, porque alguém rebentou com isto tudo, só existia uma casa, e nela vivia uma família, que era a única em todo o
(...)
Estamos em 2143 e estão -3ºC em Lisboa, cidade onde
(...)
Daniel e Sofia eram namorados. Já não são. Agora são casados. Têm um filho. Ups, fim. Sofia morreu e Daniel matou-se. Tinha o José cinco anos. Cresceu e parece que é homossexual. O corpo agora é outro. Chama-se Josefa, gosta tanto de si. Quando era homem sentia-se mulher e gostava de levar com ele. Sendo mulher, descobre agora que pode levar com ele à vontade, mas só quando ele é pertença de homem homossexual, como era José antes de ser Josefa. E de Josefa só gostam os machos, que pena. Morre de desgosto quando lhe negam o plástico regresso às origens, não sabemos porquê. Muito perto disto tudo, está Olívia, que se deixa foder por Aníbal, atrás da câmara municipal. Quando ela se decide proteger do mal branco, recorre a um preservativo que se encontra naquele chão desde que José o usou no rabo de certo moço que nunca vos chegámos a apresentar. Olívia engravida. O filho é do falecido José, ou Josefa, não do Aníbal, embora Aníbal seja como um pai para ele.
Olívia recusou-se terminantemente, dali em diante, a reciclar. Não só nunca mais reciclou, como matou o filho, que era um problema.

E agora não há maneira de continuar a história.
É como se o mundo tivesse acabado.
É como se o fosse.

Demain.

terça-feira, setembro 21, 2010

coisas más

Quando tu entraste o ar saiu
E na sombra dúvida se descobriu
Não sei quem pensas que és
Mas antes que a noite fique pra trás
Vamos fazer coisas más.

Sou do tipo que fica sentado
Olhos azuis e coração maltratado
Não sei o que me fizeste
Mas sei o que o meu toque te faz
Vamos fazer coisas más.

Quando tu entraste o ar saiu
E nas sombras a dúvida se descobriu
Não sei quem pensas que és
Mas antes que a noite fique pra trás
Vamos fazer coisas más
Vamos fazer coisas mesmo más.

Não sei o que me fizeste
Mas sei o que o meu toque te faz
Quero fazer-te coisas más
Quero fazer-te coisas mesmo más.


jace everett
tradução livre pelo vaz

segunda-feira, setembro 20, 2010

romance & cigarros

Passou Bem era um homem de grande aparato e sorriso. Em toda a sua estrutura dentária, apenas dois modelos eram amarelos, por causa dos cigarros que chupava de surra, apontando o cano sempre aos mesmos dois dentes, como alguém lhe dissera um dia para fazer.
Passou Bem cumprimentou Dona Mãe Senhora Mulher e deu conta do amor dela por si. Como se tornava feia uma mulher apaixonada. Quis gozar com ela e sorriu. Ela sorriu de volta e mostrou seu piano velho e amarelo por entre os lábios finos e duros, brochistas sem experiência. Queria beijá-lo. Passou Bem pensou que os dentes só estavam amarelos por ela estar apaixonada, e fez-lhe sentido no miolo que ele estivesse em parte apaixonado por alguém.
Mas não se lembrava de quem pudesse ser. Quando no dia que se seguiu a esse foi cumprimentar o Reverendo Lambão, este ouviu a sua confissão, e colocou mão e ternura sobre a perna de Passou Bem, dizendo-lhe que sabia por quem ele estava apaixonado. Passou Bem cuspiu sobre a mão do Reverendo mas queria saber por quem estava apaixonado, e limpou resignado o que havia ali de baba sua. O Reverendo pôs-se com exigências e fez jus ao apelido, limpando depois o que havia ali de semente alheia. Passou Bem sentiu-se inclinado a agradecer, afinal não soubera assim tão mal.
Tomou conhecimento de ser Passou Bem o objecto do amor de Passou Bem. Disse assim: "Tenho que gostar mais de mim." E dali em diante fumou mais, muito mais, e amarelou muitos mais dentes por já não se importar com os dentes a que dirijia os cigarros; abriu tanto os pulmões ao amor-próprio que um dia caiu redondo no chão, e estava morto por gostar tanto de si.

quarta-feira, setembro 15, 2010

25

os franceses
no hospital psiquiátrico
também não são
homens
são mulheres
injectados
e amarrados
onde é que a maria
morre?

quarta-feira, agosto 18, 2010

vim fazer a cobrança

Foi notícia e imagem de muita televisão que se fez, foi conversa entre amigos e vizinhos, foi zumbido, foi boato, foi vento, e, para desgraça de todos, foi. Porque aconteceu, e soube-se em jeito de enunciado teórico que o ter sido anunciado e o ter sido discutido não impedia em nada que o ter sido, sentido, acontecido, fosse. Localizo a acção um minuto antes do fim do mundo. Falo do fim das coisas como são e como as querem, da natureza, do que já lhe foi arrancado, e de tudo o que ela arrasta consigo, que são os homens, as artes e as ideias. Acabou. Ao longo desse minuto, que foi o último contado, porque o fim do mundo é o fim do tempo e dos ponteiros, muito sucedeu, digno deste registo.
Primeiro despediram-se os peixes, uns dos outros, e depois do mar, porque por terem visto o início do mundo e a origem da vida, não queriam assistir ao seu fim, e deu-se épico suicídio em massa, peixes fora de água, morte por asfixia, tantos que eram, os primeiros a partir. As aves quiseram abraçar-se e esqueceram os eventuais conflitos, fecharam-se em círculo, asa sobre asa, pois conheciam este mundo mais do que todo e qualquer, e exigiram de si mesmas um final fechado e escuro. Os outros animais, sem contar com os homens, de que falarei adiante, gritaram, gritaram porque a única coisa que o fim lhes dava era medo, e foi um grito bonito, quase capaz de vencer o medo por que se gritava, e concentrados que estavam em gritar, deram por si esquecidos de que o fim ali estava e quando ele os eliminou, foi como uma respiração, e não como um grito abafado. As plantas foram as únicas que não se fizeram ouvir, porque os peixes agitaram a água quando dela saltaram e das aves se ouviu o roçar das asas duma com as asas doutra e dos outros animais que não peixes nem aves se ouviu gritar. As plantas quedaram-se dignas e o manto verde por elas estendido ganhou outras cores e outra graça, mas foi tudo muito discreto, como não querendo chamar a atenção do fado para si, mas marcando uma posição de cor e força.
Os homens, por sua vez, foram condenados a morrer um por um: de cada vez que um caía, outro estava de pé a vê-lo morrer. Entre uma morte e outra, cabia à cabeça humana reflectir. E o último homem a morrer reflectiu sozinho e sozinho morreu, pois não havia ninguém para o ver morrer. Um minuto não é conta suficiente para cada um morrer por si, em seu tempo, e permitir-se ainda uns instantes de reflexão, por isso não percebo como morreram os homens desta maneira, mas nesta circunstância é certo que o medo e a consciência em peso fizessem o tempo passar mais devagar. Quando o mundo acabou, ficou a ausência de mundo, e nesse espaço vazio uma memória de coisa nenhuma, e o berlinde que tinha sido era agora uma bolha, tão frágil que rebentou, e foi assim, sem mais tirar nem menos pôr.

quinta-feira, agosto 12, 2010

coisas que

Ele há a menina de cabelo verde e mãos partidas, localizada em cubo de gelo, com seu gato, com seu problema de ouvidos, ele há a princesa com asas a quem olhos disseram que eva era ave ao contrário como roma é amor, ele há a rapariga mais bonita do mundo, mais convencida do mundo, mas então desdentada, zarolha e desmamada, tem dado nisto: estórias de encantar que. Pronto.
Digo eu, não sei, porque mesmo sabendo,as palavras têm pouca força.

Não é o Vaz que o faz.

quarta-feira, agosto 11, 2010

alfredo, o coveiro [parte três de três]

Coveiro e velha entendidos estavam, frente a campa de homem desconhecido, oferecendo ao pobre uma visão do inferno, oferecendo à árvore calor humano em investidas brutas, oferecendo a si mesmos a carne um do outro, sabia mal, mas e então os meninos de África.
Alfredo experimentou pela primeira vez o toque de carne viva, e desertaram da sua memória as recordações obscuras de passageiros que ele fodera, e que por tesão mantida de uma vida para outra, o haviam fodido a ele, coveiro, carrasco, vítima.
A velha, podre e maculada, olhou para ele nos olhos pequeninos. E olhos de coveiro, habituados em ver morte e não vida, responderam-lhe. Por mais estragada que estivesse, estranhou ele alguma coisa, e foi-lhe dito por alguém, que era ele próprio, pois quem sozinho está acaba por se fazer companhia, que era imperioso apagar aquele resto de vida, e temos ali uma cova com duas carcaças, a velha que se chamava Antónia e seu marido Heitor, mais conhecido por Pitosga.
A semente sobre o corpo de Gustavo secara, o coveiro correu a cobri-lo de terra, e foi como que uma despedida.

ficção

E lembrei-me de algumas coisas que queria apagar
Não querendo, ao mesmo tempo
Voltando ao assunto encerrado
Encerrado que foi por volta dos três anos
Quero descobrir o sistema
Os cordelinhos
Porque o facto parece vidro e as coisas parecem
Brinquedos meus
Nos quais não toco
Porque quero esquecer
Que a História me é líquida
E o espaço tão vasto
E a arte coisa mentirosa -
Que não acredito
Que os vejo como produto
Que ouso
Que invento e que se inventa em si mesmo
Que penso -
Penso nisto como mais uma prenda merdosa
Que fui capaz de me dar.

Raul

segunda-feira, julho 19, 2010

alfredo, o coveiro [parte dois de três]

Gostava de poder dizer que tinha sido por raiva, mas não podia, um, por não ter sido, dois, por Alfredo ser incapaz de falar, tímido era desde que se conhecera, e por relação lógica se entende que a amizade com os defuntos era coisa espiritual, espirituosa se acompanhada por copo, garrafa ou cantil.
Limpou-se à vista de uma senhora que vigiava as flores de seu marido adormecido, essa senhora chocou-se e correu a esconder-se atrás de um cipreste, era velha velha velha.
Alfredo correu desfraldado até ela não tenha medo minha senhora se soubesse o que tenho lá em casa aí sim o que tem lá em casa uma tarântula que horror, fez-se amizade.

alfredo, o coveiro [parte um de três]

Contra o vento polémico, o coveiro, de seu nome Alfredo, punha um pé à frente do outro, outro à frente de um, avançando. Avançava para novo buraco cavado, nova amizade em seu leque renovável de amizades. Avançava a pé, a lambreta ficara estacionada à porta do cemitério. Este corpo, trazido em ombros seus, braços pendendo, foi por Alfredo depositado, não delicadamente, atirado. Com a pá foi-lhe dado um jeitinho e à volta de Alfredo começava o tributo, tão querido era o corpo, tão íntimo, tão belo, tão generoso, ainda que mais não fosse que branca carcaça bafienta, fruta roída, isco de corvo. Mais do que isto tudo, era pai, filho, irmão de alguns, cantou-se, e sobretudo, houve flores e lágrimas e foi tão bonita a despedida.
Quando ficou sozinho com o corpo, aquele coberto de terra e pedra e flores e lágrimas, cuspiu-lhe Alfredo em cima e disse-lhe vi logo que não eras muito dado não colaboraste fizeste de ti peso morto que difícil foi transportar-te e atirar-te para o buraco onde vais passar o resto da tua, o corpo não cedeu, não se remoeu em resposta por dentro do plástico preto, aqui não há caixão.
Alfredo descontente coçou sua careca e seu sovaco e seu tomate direito, e por isto lhe foi imposta reacção fálica, que o coveiro estimulou, que se veio no cadáver, ninguém viu.

quinta-feira, junho 10, 2010

crime e castigo

Era uma vez um homem rico
Para enriquecer ele fez coisas más
Vivia num terror
Uma noite disparou contra si mesmo

E.B.

---

Esse homem tinha por nome Gustavo, e tendo Edward Bond isto dito, continuou a escrever, continuei eu a escrever, com defunto ou sem defunto. Quando virmos o beco infernal onde Gustavo acabou enfiado, e o que lá lhe aconteceu, ficar-lhe-emos de tal forma apegados que aos nossos olhos o castigo será muito para tão pouco crime. E afinal, claramente de contas, o merecido é devido, pouco castigo, digo, muito crime, acrescento.

Evito assim possíveis mal-entendidos.

sábado, maio 29, 2010

o pitosga é um homem morto

Sim, sr. agente, passou por aqui. Tenho a certeza de que era ele. Não tenho como lho provar, mas era ele, o seu ar acriançado, mas ainda ele, ainda os seus traços. Falou-me. Não me pareceu que se lembrasse de mim. E vai-me perdoar, sr. agente, mas eu não ia estragar tudo, não ia dizer-lhe conheço-te não me conheces tu, as pessoas dizem mais de si a quem não conhecem. Pois, importante, de relevância, diz o senhor, importante só estou a ver a pergunta que ele me fez. Ele perguntou-me se eu conhecia algum pitosga, eu muitos, pitosga apelido era, esse não. Disse-me que o fosse buscar ou que avisasse alguém para o ir buscar ou que esse alguém fosse o intermediário entre mim e a pessoa que o fosse buscar, disse-me que ele estava por lá, na orla da colina. Mais valia o raul ter-me dito que o pitosga estava morto, menor teria sido o meu susto, que assustada que fiquei, sr. agente.

Anabela

quarta-feira, maio 26, 2010

quando o dinheiro falta

Com desenho elaborado, Gustavo rabiscou o seu nome no fundo da folha, onde para o efeito figurava um xis, e entregou-a à Paula, que se mais simpática fosse teria tornado a sua vida nos céus mais fácil, se é que vida lhe posso chamar.
Esperou dias para que lhe enviasse o seu cartão, que lhe permitia aceder, entre outros, à sua conta no paraíso, e aos descontos na cultura, válidos apenas no primeiro ano, ao fim do qual teria que passar a pagar uma anualidade. A falta de comprovativo de nibe não permitiu que lhe pagassem o subsídio de óbito e o recurso à segurança social não lhe foi diferido por apresentar tão bom aspecto e cuidado.
O dinheiro é o que move rodas e pernas e sinos e assim andam para a frente as vidas e, está claro, as mortes, só o sabe quem lá está, e aqui vejo uma boa razão para quem respira não deixar heranças valorosas aos seus entes queridos, cedo se aperceberão de que os títulos e as notas têm uso cá em cima. Ora, dinheiro Gustavo não tinha.
E sem dinheiro para meias, para contraceptivos e para bilhetes disto e daquilo, as três coisas essenciais na vida de um homem, e na morte, por acréscimo, sucumbiu aos meios de sobrevivência mundana, calou a dignidade e começou a trabalhar.
Quem pegasse num exemplar do diário das nuvens veria nos classificados um anúncio que respeitava a restrição dos cento e sessenta caracteres e explicava tim tim por tim tim as condições do serviço, que cá em cima não é crime algum.
O primeiro cliente surgiu, com lata, no bairro de lata, divino que seja.
Fazes tudo o que dizia no anúncio?
Nem metade, mas preciso do dinheiro.
Mas isto é assim?
É.
Olha, não acho justo. Tens sorte que o meu trabalho é acabar com a injustiça.
Mas não cometi crime nenhum.
Cometeste cometeste.
Cometi?
Cometeste. Mentiste. Mentiste no anúncio.
Levas-me preso?
Pelo contrário. Liberdade é o que lá não falta.
E Gustavo desceu degrau a degrau, elevadores são grande investimento para anjo desertado, e no balcão do átrio, lá muito em baixo, pediu um mapa das instalações, no menos três era a ala do alterne, inferno que é inferno tem uma.

chão

Nada é eterno. Tudo pára. Só há anjos.

Sebastian

segunda-feira, maio 24, 2010

lobisomem

video

fica sabendo

O Gustavo morreu. Contei ao Pitosga mas deixei que adormecesse em aborrecimento. O Gustavo era um bom homem mas já era hora. O Pitosga é detestável e a sua não chega, aguenta-se em glória até à sangria que a todos nos espera.
O Raul está a investigar. Insiste no exploradorismo. Sabes perfeitamente que nunca gostei do teu avô e tu tampouco devias gostar dele, que a tua herança é um bilhete, e não temos a sorte de este ser de suicídio, que Deus me perdoe.
Sabes quem escreve. Lamento que já não me respondas, mas a culpa é-me igual ao pão.

sexta-feira, maio 21, 2010

NIB

Faltava ainda uma escadaria de centenas, uma corda que alcançava o promontório, um túnel para que nele rastejasse e depois um escorrega.
Demorou menos tempo do que pensava. Quando pisou a pavimentação foleira do átrio de entrada, sentiu-se cheio de uma tranquilidade artificial, forçada por essa consciência que esquecia a estranheza do lugar e então a do seu corpo no lugar. Portanto, estava calmo, que bom que era.
E apareceu um senhor com idade para ser seu pai, ou talvez avô, não soube. Disse-lhe olá, não o visitante ao anfitrião mas o anfitrião ao visitante, e depois sim, o visitante respondeu-lhe com outro olá. E ali ficaram, naquele impasse, sem saber do que falar. Não fazia sentido perguntar por novidades.
O outro puxou de um cigarro. Este pediu-lhe um, começava a ficar nervoso. O pior já tinha passado, toda a caminhada, e agora esta calma que lhe era imposta cristalizava o suor cuspido das axilas, das coxas, da cabeça, frutos da terrível viagem. Fumaram em silêncio.
És o próximo, disse o anfitrião ao visitante, disseram-mo.
O que é que eu tenho que fazer?
Preciso do teu bê í, cartão de contribuinte, comprovativo do NIB e três fotografias de rosto.
Trouxe tudo.
Então entra. Entrega tudo à Paula da recepção.
A calma desapareceu. Não tinha o comprovativo do nibe. E então pensou que, com sorte, a Paula da recepção era mais simpática que o senhor do portão e talvez o deixasse trazê-lo na segunda-feira. Acontece que não era, e o visitante, chamado Gustavo, deu meia dúzia de passadas e teve uma morte miserável.

tributo

Mas escrever tenho mesmo de escrever porque esta noite apanhei um cagaço tão grande que me ia borrando todo e eu vou explicar o que foi

Solitão