sábado, maio 29, 2010

o pitosga é um homem morto

Sim, sr. agente, passou por aqui. Tenho a certeza de que era ele. Não tenho como lho provar, mas era ele, o seu ar acriançado, mas ainda ele, ainda os seus traços. Falou-me. Não me pareceu que se lembrasse de mim. E vai-me perdoar, sr. agente, mas eu não ia estragar tudo, não ia dizer-lhe conheço-te não me conheces tu, as pessoas dizem mais de si a quem não conhecem. Pois, importante, de relevância, diz o senhor, importante só estou a ver a pergunta que ele me fez. Ele perguntou-me se eu conhecia algum pitosga, eu muitos, pitosga apelido era, esse não. Disse-me que o fosse buscar ou que avisasse alguém para o ir buscar ou que esse alguém fosse o intermediário entre mim e a pessoa que o fosse buscar, disse-me que ele estava por lá, na orla da colina. Mais valia o raul ter-me dito que o pitosga estava morto, menor teria sido o meu susto, que assustada que fiquei, sr. agente.

Anabela

quarta-feira, maio 26, 2010

quando o dinheiro falta

Com desenho elaborado, Gustavo rabiscou o seu nome no fundo da folha, onde para o efeito figurava um xis, e entregou-a à Paula, que se mais simpática fosse teria tornado a sua vida nos céus mais fácil, se é que vida lhe posso chamar.
Esperou dias para que lhe enviasse o seu cartão, que lhe permitia aceder, entre outros, à sua conta no paraíso, e aos descontos na cultura, válidos apenas no primeiro ano, ao fim do qual teria que passar a pagar uma anualidade. A falta de comprovativo de nibe não permitiu que lhe pagassem o subsídio de óbito e o recurso à segurança social não lhe foi diferido por apresentar tão bom aspecto e cuidado.
O dinheiro é o que move rodas e pernas e sinos e assim andam para a frente as vidas e, está claro, as mortes, só o sabe quem lá está, e aqui vejo uma boa razão para quem respira não deixar heranças valorosas aos seus entes queridos, cedo se aperceberão de que os títulos e as notas têm uso cá em cima. Ora, dinheiro Gustavo não tinha.
E sem dinheiro para meias, para contraceptivos e para bilhetes disto e daquilo, as três coisas essenciais na vida de um homem, e na morte, por acréscimo, sucumbiu aos meios de sobrevivência mundana, calou a dignidade e começou a trabalhar.
Quem pegasse num exemplar do diário das nuvens veria nos classificados um anúncio que respeitava a restrição dos cento e sessenta caracteres e explicava tim tim por tim tim as condições do serviço, que cá em cima não é crime algum.
O primeiro cliente surgiu, com lata, no bairro de lata, divino que seja.
Fazes tudo o que dizia no anúncio?
Nem metade, mas preciso do dinheiro.
Mas isto é assim?
É.
Olha, não acho justo. Tens sorte que o meu trabalho é acabar com a injustiça.
Mas não cometi crime nenhum.
Cometeste cometeste.
Cometi?
Cometeste. Mentiste. Mentiste no anúncio.
Levas-me preso?
Pelo contrário. Liberdade é o que lá não falta.
E Gustavo desceu degrau a degrau, elevadores são grande investimento para anjo desertado, e no balcão do átrio, lá muito em baixo, pediu um mapa das instalações, no menos três era a ala do alterne, inferno que é inferno tem uma.

chão

Nada é eterno. Tudo pára. Só há anjos.

Sebastian

segunda-feira, maio 24, 2010

lobisomem

video

fica sabendo

O Gustavo morreu. Contei ao Pitosga mas deixei que adormecesse em aborrecimento. O Gustavo era um bom homem mas já era hora. O Pitosga é detestável e a sua não chega, aguenta-se em glória até à sangria que a todos nos espera.
O Raul está a investigar. Insiste no exploradorismo. Sabes perfeitamente que nunca gostei do teu avô e tu tampouco devias gostar dele, que a tua herança é um bilhete, e não temos a sorte de este ser de suicídio, que Deus me perdoe.
Sabes quem escreve. Lamento que já não me respondas, mas a culpa é-me igual ao pão.

sexta-feira, maio 21, 2010

NIB

Faltava ainda uma escadaria de centenas, uma corda que alcançava o promontório, um túnel para que nele rastejasse e depois um escorrega.
Demorou menos tempo do que pensava. Quando pisou a pavimentação foleira do átrio de entrada, sentiu-se cheio de uma tranquilidade artificial, forçada por essa consciência que esquecia a estranheza do lugar e então a do seu corpo no lugar. Portanto, estava calmo, que bom que era.
E apareceu um senhor com idade para ser seu pai, ou talvez avô, não soube. Disse-lhe olá, não o visitante ao anfitrião mas o anfitrião ao visitante, e depois sim, o visitante respondeu-lhe com outro olá. E ali ficaram, naquele impasse, sem saber do que falar. Não fazia sentido perguntar por novidades.
O outro puxou de um cigarro. Este pediu-lhe um, começava a ficar nervoso. O pior já tinha passado, toda a caminhada, e agora esta calma que lhe era imposta cristalizava o suor cuspido das axilas, das coxas, da cabeça, frutos da terrível viagem. Fumaram em silêncio.
És o próximo, disse o anfitrião ao visitante, disseram-mo.
O que é que eu tenho que fazer?
Preciso do teu bê í, cartão de contribuinte, comprovativo do NIB e três fotografias de rosto.
Trouxe tudo.
Então entra. Entrega tudo à Paula da recepção.
A calma desapareceu. Não tinha o comprovativo do nibe. E então pensou que, com sorte, a Paula da recepção era mais simpática que o senhor do portão e talvez o deixasse trazê-lo na segunda-feira. Acontece que não era, e o visitante, chamado Gustavo, deu meia dúzia de passadas e teve uma morte miserável.

tributo

Mas escrever tenho mesmo de escrever porque esta noite apanhei um cagaço tão grande que me ia borrando todo e eu vou explicar o que foi

Solitão